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Gilberto Gil opina sobre onda conservadora no Brasil e no mundo


Penúria, fúria, clamor, desencanto: substantivos duros de roer.
Enquanto os ratos roem o poder, os corações da multidão aos prantos”. Gilberto Gil prefere a metáfora, mas nenhuma figura embaça a linguagem. Se a chamada é para opinar sobre política, ele indica sua intenção nos versos de “Ok ok ok”: “Dos tantos que me preferem calado, poucos deles falam em meu favor. A maior parte adere ao coro irado dos que me ferem com ódio e terror”.
Ciente das gritarias virtuais e concretas contra a arte e a liberdade de expressão, movimentos que já enfrentou no passado, Gil confirma:
— Continuo otimista: não há abismo em que o Brasil caiba (o artista retoma uma frase recente em que também diz: "Quando vai cair ele fica preso ali, na boca do abismo"). Os impulsos da sociedade, da vida moderna e contemporânea, criados por novas tecnologias, modos e ambições comportamentais das populações no mundo, são de difícil reversão. Não acho que o conservadorismo, o obscurantismo e todas estas coisas que estão aí ameaçando e criando seu campo de forças contra a "globalização", no sentido amplo da palavra, vençam. Essa globalização é irreversível.
O artista resiste nas canções. Por isso, nesta quinta-feira, às 16h, ele participa da Festa Literária das Periferias sentado à mesa sobre o papel da MPB na reflexão dos fenômenos sociais e de mobilização:
— Meu trabalho sempre foi dar vazão a este desejo de me expressar e de me comunicar através da palavra cantada. É isso que tenho feito desde os 15 anos, sempre tentando utilizar da melhor forma possível a luz da linguagem, a poesia, o pensamento.
A serenidade madura não afasta a empolgação com a mobilização da juventude, sobretudo a negra, tema desta sétima edição de Flup:
— Outro dia eu estava no aeroporto e um menino poeta, ensaísta negro de São Paulo, me presenteou com o livro dele. Tinha todas as informações sobre sua luta, inserção da poesia num campo de resistência, de reivindicação das abolições ainda necessárias para que o povo negro encontre o lugar que merece na vida brasileira.
Apesar do indiscutível talento para lidar com as palavras, Gil é modesto demais:
— Não me considero suficientemente dotado para escrever um livro. Já acho muito fazer as pequenas canções que escrevo. Se eu viesse a fazer, seria um conjunto de ensaios sobre temas variados. Não tenho vontade nem de uma investida autobiográfica. Na literatura, não creio que eu possa fazer coisa valiosa.
Pai de homens e mulheres de destaque em suas profissões — entre eles a apresentadora Bela Gil e a cantora Preta Gil —, o compositor diz se alinhar ao feminismo desde a educação até a inspiração para compor.
— O fortalecimento da posição da mulher na vida contemporânea é fundamental. Eu sou suspeito, porque metade da minha obra é dedicada a tratar desse assunto: da importância da mulher, desde a mãe (Claudina Gil, que faleceu em 2013) até a bisneta (Sol de Maria, que nasceu em 2015).

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